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A Viagem
Embarco com todo aquele nervosismo que quase me paralisa. Sampa é tão bonita vista de cima, ou seria por todos os lados? Uma tempestade me aguarda em Curitiba. Mau sinal? Não sei. Vou para o hotel com um motorista tão desanimado quanto os santinhos que protegem seu carro.
Cama de mola, banheiro amplo e ducha quentinha. Me abraça? Ligo para as casas de quem me quer bem. Estou viva, bem viva. Saio para reconhecer o território, comer algo, ver como as pessoas daqui são bonitas: altas, traços finos, longos e expressivos. Ruas limpas quase sem poças, carros lentos, árvores, muitas árvores e boa arquitetura. É fácil andar em suas avenidas amplas. É fácil sentir-me parte de seu labirinto.
Há no parque batuque, cantos, um guarda-chuva vermelho em meio às paralelas brancas. E roda, roda, roda, sem deixar que as gotas de inspiração escorram totalmente. Homens jogam futebol de outra América, que defende invasões bárbaras. Mesmo com o cinza, o amarelo, que emoldura a moça e segura o olho, reflete forte no mármore líquido e concreto. Piões descansam do outro lado. Casais estão dissonantes sobre a reta, próximos, distantes, uno. Nada além do vento e minha prazerosa solidão de descobertas. Nada além das árvores cobertas por lágrimas.
Os pássaros começam a coreografia diária de volta ao lar. Acolhem-se próximo ao papa pálido. Paro por respeito ao espetáculo, por total encantamento. As aves pequenas, ao que me parecem, ficam nas árvores mais cheias, já as maiores, nas mais altas. Quero me aproximar, mas sou a ameaça estrangeira, a peça derradeira que pode pôr tudo a perder. O rosto cola na grade e acompanha as penas por sobre pernas finas.
Sinto-me mais feliz e volto querendo não encontrar o meu abrigo, viver plenamente o desconhecido. Ligo para o rapaz que eu escolhi para compartilhar a noite, para fazer do seu olhar meu ângulo. Atencioso, mostra-se disposto. Então, está combinado!
Deito na cama, me encolho entre diversos travesseiros, quase durmo, mas o rapaz liga, combina a hora da saída e brinca com minha voz. Acordo uma hora antes da Hora. Tomo mais um banho, visto meu macacão, lápis, sombra, confiança, batom... Perfeita! Para quem? Para mim, oras!
Ele chega e tem o desleixo dos simpáticos. Estranho eu sei, mas era. Quase um comunista pela barba e cabelo. Ele está apenas de camiseta, só para contrastar com meu casaco. Ainda garoa, mas ele está de carro.
No centro velho curitibano habita uma parati de ruas mais largas e pedras menos exageradas. A luz é igual, assim como a sensação de nostalgia que esta me causa.
No restaurante granfino somos bem servidos, apesar de destoarmos. Somos jovens demais, leves demais, sorrisos demais...
Começamos nosso jogo sincero de frases e silêncios. Queremos descobrir o que nunca assumiríamos, não em uma noite. Sinto prazer no flerte inteligente, por mais que não tenha uma meta em comum. Dificulto a fase quando pronuncio a palavra “sogra”. No caso, a minha. Em São Paulo, mineira, mãe de um amor chamado Pedro, que não hesitaria em ligar naquela mesma noite. E ficaria martirizando-se, pensando se eu dormiria sozinha ou não.
Mas, o rapaz ao ouvir tal heresia, não fez como a cidade em romaria e não veio me pedir: “Vem comigo, vem Tali!” Ele apenas sorriu, respirou e puxou outro assunto cabeça, ou me contou sobre suas aventuras no Uruguai, em um intercâmbio pouco provável. O banquete estava ótimo.
Saímos rumo “A” noite curitibana. Fila paulistana em frente ao bar. Chope menos gelado do que deveria, amigos do novo amigo, sorria.
Continua...
Escrito por Talita, Tali, Táta, Tá às 00:20
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Rapidinha?
Onde antes duas pernas bamboleavam, quartos expandiram vidas, feridas e sonhos. Onde antes havia o resto do infinito, nasceram abrigos de segredos impronunciáveis. E a vista não era definida pela retina, nem mesmo pela luz do sol. Não eram as metáforas apenas signos, mas sim, o sentido revestido de simplicidade. O abstrato mostrou-se exato em seu devaneio e meu seio encheu-se da graça de seus pecados. Nada há que não possa ser redescoberto por nossas inúmeras possibilidades. Somos e não basta, como não pode nada bastar a nossa ânsia vasta.
Escrito por Talita, Tali, Táta, Tá às 11:47
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